TREINAMENTOS EM TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO DE PRODUTOS FITOSSANITÁRIOS E ADJUVANTES (06/2016)

Treinamentos em Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários

Sagros & Louis Dreyfus Company Brasil 

Programa Stars 2016/2017

Irmãos Barzotto - Fazenda Sapezal I

Lucas do Rio Verde, Estado do Mato Grosso


A Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários representa um importante conjunto de conhecimentos destinados a proporcionar maior eficiência às pulverizações agrícolas, buscando colocar a quantidade necessária do produto sobre o alvo, com adequada distribuição, uniformidade e segurança operacional.

Dentro desse conceito foram realizados trabalhos de treinamento e demonstrações práticas em Tecnologia de Aplicação para o Programa Stars 2016/2017, envolvendo as renomadas empresas Sagros & Louis Dreyfus Company Brasil, na Fazenda Sapezal I – Irmãos Barzotto, localizada em Lucas do Rio Verde, Estado do Mato Grosso.

As atividades tiveram como objetivo demonstrar, diretamente nas condições de campo, a influência exercida por diferentes componentes da pulverização, com destaque para seleção das pontas, volume de aplicação, velocidade operacional, tamanho das gotas, cobertura do alvo, potencial de deriva e utilização de adjuvantes.

Mais do que simplesmente regular um pulverizador para atingir determinado volume em litros por hectare, a Tecnologia de Aplicação procura compreender o comportamento das gotas produzidas e sua capacidade de alcançar e permanecer sobre o alvo.




Regulagem do pulverizador: muito além dos litros por hectare

Uma pulverização tecnicamente adequada começa pela avaliação das condições do equipamento.

Bomba, filtros, mangueiras, manômetro, sistema de agitação, comandos, porta-bicos, válvulas antigotejo, espaçamento entre pontas e estabilidade da barra precisam trabalhar de forma integrada.

A calibração relaciona diferentes variáveis operacionais. A vazão individual das pontas, a velocidade de deslocamento, o espaçamento entre bicos e o volume desejado por hectare estão diretamente relacionados.

Isso significa que alterações na velocidade ou na vazão modificam o volume final aplicado.

Entretanto, a regulagem não deve ser analisada somente sob o aspecto matemático. Dois conjuntos de pontas capazes de proporcionar o mesmo volume por hectare podem produzir espectros de gotas completamente diferentes, modificando cobertura, densidade de impactos e potencial de deriva.

É justamente nesse ponto que a seleção técnica das pontas assume grande importância.




Seleção prática das pontas de pulverização

Os trabalhos realizados na Fazenda Sapezal I utilizaram diferentes tecnologias de pontas para demonstrar visualmente suas características de deposição.

As fotografias originais registram, entre outras configurações, ponta de jato plano simples 11003, jato plano simples 110015, jato plano duplo DBX AIR 110015 e pontas de jato cônico vazio, além das respectivas avaliações utilizando papéis sensíveis à água.

A diversidade dessas tecnologias possibilita demonstrar um princípio fundamental: não existe uma ponta universal para todas as pulverizações.

A escolha deve considerar o alvo, produto utilizado, volume de aplicação, pressão, velocidade operacional, necessidade de cobertura, condições meteorológicas e risco de deriva.

Pontas de jato plano possuem ampla utilização em pulverizadores de barra. Dentro dessa categoria existem diferentes construções capazes de produzir comportamentos distintos das gotas.

Já as pontas de jato cônico vazio podem produzir padrões e espectros bastante diferentes, tradicionalmente utilizados em situações nas quais a cobertura e a distribuição das gotas apresentam grande importância.

Sistemas de jato duplo permitem direcionamento em mais de um sentido, podendo alterar a dinâmica de encontro das gotas com o alvo.

Assim, o código gravado na ponta representa apenas uma parte das informações necessárias para sua correta seleção.




Tamanho das gotas e qualidade da aplicação

Toda ponta hidráulica produz uma população de gotas de diferentes diâmetros. Essa população é denominada espectro de gotas.

A compreensão desse conceito é fundamental para interpretar uma pulverização.

Gotas muito pequenas possuem menor massa e permanecem mais suscetíveis ao deslocamento pelo vento. Também apresentam maior relação entre superfície e volume, condição que favorece perdas por evaporação principalmente em ambientes com temperatura elevada e baixa umidade relativa.

Por outro lado, gotas maiores apresentam maior massa e menor suscetibilidade à deriva, mas podem reduzir o número de impactos por unidade de área quando comparadas a gotas menores utilizando o mesmo volume de aplicação.

Portanto, existe uma relação técnica entre tamanho das gotas, número de gotas, cobertura e segurança contra deriva.

O objetivo não é simplesmente produzir a menor gota possível para aumentar a cobertura, nem produzir gotas extremamente grandes apenas para controlar deriva.

É necessário encontrar um equilíbrio adequado às características do tratamento fitossanitário.


Papéis hidrossensíveis como ferramenta de avaliação

Um dos aspectos mais interessantes documentados nessa matéria técnica é a utilização de papéis sensíveis à água para comparação das deposições.

Nas fotografias das páginas 2, 3 e 4 é possível observar claramente diferentes padrões de impactos obtidos com as pontas avaliadas.

Quando uma gota contendo água atinge a superfície amarela do papel hidrossensível, ocorre uma alteração visual que permite identificar os impactos. Dessa maneira, o cartão constitui importante ferramenta para demonstrações comparativas da pulverização.

É possível observar visualmente aspectos como quantidade relativa de impactos, distribuição das gotas, áreas com maior ou menor cobertura e diferenças entre configurações de pontas.

É importante destacar, entretanto, que uma elevada quantidade de manchas não significa, isoladamente, que determinada tecnologia seja superior.

Uma avaliação adequada precisa considerar conjuntamente o alvo biológico, produto utilizado, volume, tamanho das gotas, uniformidade da distribuição e risco de perdas.

Os papéis hidrossensíveis tornam visível aquilo que muitas vezes não pode ser percebido durante a passagem do pulverizador.




Comparação entre volumes de aplicação

Os registros fotográficos mostram trabalhos realizados com volumes de 50 a 100 litros por hectare, utilizando velocidade operacional de aproximadamente 16 km/h em diferentes configurações.

A comparação de volumes é extremamente importante para demonstrar que a quantidade de água utilizada por hectare não pode ser analisada isoladamente.

A redução do volume pode proporcionar aumento da capacidade operacional do pulverizador, principalmente pela diminuição do número de paradas para abastecimento.

Entretanto, quanto menor o volume, maior passa a ser a importância da correta seleção das gotas.

Se a redução do volume for realizada sem considerar tamanho das gotas, densidade de impactos e cobertura necessária, pode ocorrer perda de qualidade.

Por outro lado, utilizar volumes elevados sem necessidade também pode diminuir a capacidade operacional, aumentar o número de abastecimentos e elevar o tempo necessário para tratar determinada área.

Portanto, volume de aplicação deve ser consequência de uma estratégia técnica, e não simplesmente de um valor tradicionalmente utilizado na propriedade.




Velocidade operacional e capacidade de campo

A velocidade é outro componente importante. Os ensaios documentados utilizaram velocidade de aproximadamente 16 km/h, demonstrando uma situação operacional compatível com pulverizadores autopropelidos.

O aumento da velocidade pode elevar significativamente a capacidade de campo, porém exige atenção.

Mudanças de velocidade interferem no volume aplicado quando não acompanhadas dos ajustes correspondentes de vazão. Além disso, velocidades elevadas podem influenciar a estabilidade da barra, principalmente em terrenos irregulares.

Oscilações verticais alteram momentaneamente a distância entre as pontas e o alvo, modificando a sobreposição dos jatos e aumentando a possibilidade de irregularidade na distribuição.

Portanto, a velocidade economicamente interessante é aquela que consegue associar rendimento operacional e manutenção da qualidade da pulverização.




Pressão e formação das gotas

A pressão também precisa ser tratada como variável tecnológica. Aumentar a pressão pode elevar a vazão de uma ponta hidráulica, mas não na mesma proporção do aumento da pressão. Além disso, em muitas tecnologias de pontas, pressões mais elevadas favorecem a formação de gotas proporcionalmente menores.

Por isso, utilizar pressão simplesmente para corrigir grandes diferenças de volume pode modificar indesejavelmente o espectro de gotas.

Quando a alteração necessária de vazão é significativa, muitas vezes a escolha de outro tamanho de ponta representa solução tecnicamente mais adequada.

Esse entendimento é essencial porque pressão, vazão e tamanho das gotas estão relacionados, mas não são sinônimos.




Deriva: perdas para fora do alvo

A deriva constitui um dos principais pontos de atenção nas pulverizações. O risco aumenta principalmente quando existe uma elevada proporção de gotas pequenas associada a condições meteorológicas desfavoráveis.

Velocidade e direção do vento, temperatura e umidade relativa precisam ser acompanhadas durante a operação.

A altura da barra também interfere. Quanto maior a distância percorrida pelas gotas entre a ponta e o alvo, maior será o período de exposição ao vento e às condições favoráveis à evaporação.

A seleção de pontas que produzam espectro mais adequado, associada à correta pressão e altura da barra, representa uma importante ferramenta para redução das perdas.

Dessa forma, o controle da deriva deve começar antes da pulverização, durante o planejamento e a seleção da tecnologia.




Adjuvantes e comportamento das gotas

Durante trabalhos de Tecnologia de Aplicação, a avaliação dos adjuvantes de calda constitui outro importante recurso para demonstrar alterações no comportamento das pulverizações.

As formulações de adjuvantes não são iguais. Dependendo de sua composição, podem apresentar características relacionadas a espalhamento, molhamento, aderência, controle de espuma, compatibilidade da calda e modificação de propriedades relacionadas à formação das gotas.

Uma demonstração simples de espalhamento, por exemplo, permite comparar a área ocupada por gotas de soluções contendo diferentes adjuvantes sobre determinada superfície.

Da mesma maneira, avaliações comparativas da pulverização permitem observar se uma formulação interfere no padrão de formação e deposição das gotas.

Isso demonstra que a seleção de um adjuvante deve considerar qual atributo se deseja obter na aplicação.

O simples fato de adicionar um adjuvante à calda não garante automaticamente maior eficiência.



Qualidade da água utilizada nas pulverizações

A água representa grande parte do volume existente no tanque e suas características podem interferir no comportamento de determinados produtos.

Entre os parâmetros de avaliação prática mais importantes merecem destaque o pH e a dureza da água, associados à observação das condições da fonte utilizada para abastecimento.

A dureza está relacionada principalmente à presença de íons como cálcio e magnésio. Dependendo das características da água e dos produtos utilizados, esses componentes podem participar de interações químicas na calda.

O pH também pode apresentar importância para a estabilidade de determinados ingredientes ativos e formulações.

Por essa razão, conhecer previamente algumas características da água permite identificar situações que mereçam maior atenção durante o preparo da calda.

Essa análise deve ser utilizada como ferramenta de apoio à decisão, e não como avaliação isolada.


Integração entre ponta, gota, água, adjuvante e ambiente

Os trabalhos realizados demonstram que a qualidade de uma pulverização não depende de uma única variável.

Uma ponta corretamente selecionada pode apresentar comportamento inadequado se utilizada fora de sua faixa operacional. Um excelente padrão de gotas pode sofrer perdas quando as condições meteorológicas são desfavoráveis. Um produto corretamente selecionado pode encontrar condições inadequadas de preparo de calda.

Por isso, a Tecnologia de Aplicação precisa integrar: equipamento + regulagem + ponta + pressão + volume + velocidade + gotas + condições meteorológicas + água + formulações e adjuvantes.

A análise dos papéis hidrossensíveis utilizados nos treinamentos permite justamente visualizar o resultado final da interação de parte dessas variáveis.

Não se trata apenas de observar se o pulverizador está aplicando, mas de avaliar como está aplicando.




Boas Práticas nas Pulverizações

A realização de treinamentos diretamente nas propriedades permite aproximar conceitos teóricos da realidade operacional dos profissionais responsáveis pelas pulverizações.

A seleção correta das pontas, a regulagem do equipamento, a interpretação das gotas, o acompanhamento meteorológico, o conhecimento da água e o uso criterioso dos adjuvantes contribuem para reduzir perdas e melhorar o aproveitamento das aplicações.

As Boas Práticas nas Pulverizações devem ser construídas através dessa visão integrada.

Mais do que aumentar a capacidade operacional, é necessário buscar equilíbrio entre eficiência agronômica, segurança, rendimento operacional, redução de deriva e responsabilidade ambiental.

Os trabalhos desenvolvidos na Fazenda Sapezal I, dentro do Programa Stars 2016/2017, demonstraram na prática como diferentes tecnologias de pontas e configurações operacionais podem modificar significativamente a deposição das gotas.

Selecionar a tecnologia adequada não significa escolher simplesmente uma ponta de pulverização: significa compreender o comportamento das gotas que essa ponta produzirá dentro das condições reais de cada aplicação.


Engº Agrº Manoel Ibrain Lobo Junior
Consultor em Tecnologia de Aplicação
Auditor GlobalGAP IFA (Boas Práticas Agrícolas)
lobo@pulverizador.com.br 



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